

Alice tem cabelos negros e tão fartos que dão voltinhas perto do pescoço e podem ser colocados atrás das orelhas. É cheia de dobrinhas – nasceu com 3,6 kg – e tem uma boquinha em forma de coração. Acima de tudo, tem uma placidez que me surpreende a cada instante. É daquelas de quem se diz “parece que nem tem bebê em casa”. Ela dorme, mama, faz xixi e cocô, volta a dormir e, quando está acordada, nos fita com seus olhinhos redondos.
Hoje Alice completa nove dias de vida. A cada minuto que passa, mais me impressiono com a tranqüilidade que tomou conta de nossa casa desde que ela chegou. Quando EmÃlia nasceu, minha vida virou de pernas para o ar. Eu não dormia nada, não me alimentava, entrava em pânico a cada gemido de minha pequena. Amamentar era um desafio à minha resistência à dor – eu fechava os olhos e contraÃa cada músculo do corpo quando ela abocanhava meu mamilo ensanguentado (e só lá pelo segundo mês a dor foi substituÃda pelo prazer).
Pois bem. Amamentar Alice foi um prazer desde o primeiro instante porque, precavida, eu já havia me preparado para isso durante a gravidez. Acordar à noite para alimentá-la e trocar-lhe as fraldas também não é nenhum drama – eu já sabia o que vinha pela frente e, confesso, até acho que a qualidade do meu sono está bem boa, tendo em vista que acabei de parir. A ansiedade de ter contato com o mundo externo foi substituÃda pela vontade de ficar no meu casulo, recolhida, porque sei que daqui a pouco a vida voltará a ser do jeito que era antes. Quando eu menos me der conta, vou voltar a enfrentar o trânsito de São Paulo, a lutar por encontrar uma brecha na minha agenda para fazer as unhas, a tomar um chope no almoço de sábado num boteco qualquer, e vou sentir saudades de quando a Alice era só um bebezinho indefeso que dormia o dia inteiro.
Sim, porque o nascimento da Alice me fez constatar que o tempo passa rápido, muito rápido. De repente, EmÃlia deixou de ser uma bebezuda para se transformar numa menina. Eu olho para ela e, em comparação com Alice, vejo o quanto minha filha mais velha é crescida. Subitamente, notei quão imensa, madura e inteligente é minha primogênita. E isso porque, enciumadinha com as atenções voltadas para Alice (é inevitável), ela até deu uma leve regredida no comportamento. Resolveu, por exemplo, engasgar durante o almoço, para que batamos nas costinhas dela, igual fazemos com Alice quando ela se enrosca com o leite.
O que quero dizer com tudo isso é que sim, é verdade quando dizem que cuidar do segundo filho é incomparavelmente mais sossegado do que do primeiro. Pelo menos comigo tem sido assim. O stress provocado pelo nascimento do primeiro bebê é, acredito, comparável a uma mudança de paÃs. De repente, você tem que se habituar a uma nova lÃngua, paisagem, hábitos, e morre de banzo da vida no paÃs de origem. Ter o segundo filho é semelhante a mudar de rua, mas permanecer no mesmo bairro. A paisagem, os vizinhos, os hábitos, tudo é igual. Tudo já é conhecido. O que você precisa é fazer uma adaptação ou outra – aprender o nome do porteiro novo do prédio; ou, no caso em questão, descobrir que dividir a atenção entre duas filhas é, por vezes, de partir o coração e de levar lágrimas aos olhos.
Hoje, EmÃlia pôs Alice no colo. Estava tão orgulhosa por conseguir carregar nos braços a irmã mais nova que gargalhava. Vendo aquela cena, tive vontade de chorar de felicidade. Tenho muito orgulho das “minhas meninas do meu coração”, como diz a música.
Adriana Negreiros, 34 anos, é jornalista e editora da Revista PLAYBOY, da Editora Abril. É mãe de Emília, 4 anos, uma menina tão sapeca quanto a personagem do Monteiro Lobato. O pai da bonequinha é Lira Neto, 45 anos, jornalista e autor de biografias, como Maysa - Só numa Multidão de Amores. O próximo livro dele, sobre o Padre Cícero, vai nascer em Junho, junto com a Alice - que enquanto isso se diverte dando cambalhotas na barriga da Adriana.
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