Por Adriana Negreiros
Na próxima sexta, completo 37 semanas de gestação. Estou enormemente tentada a iniciar minha licença-maternidade na sequencia. Na gravidez da EmÃlia, saà justamente quando cheguei a este estágio, mas me arrependi profundamente – a danada só veio a nascer um mês depois e tive que voltar ao trabalho quando ela mal havia completado quatro meses. Havia prometido a mim mesma que, com a Alice, seria diferente, que eu sairia da redação direto para a maternidade. Mas estou prestes a desistir dos meus planos.
Trabalhar no estágio final da gravidez é um suplÃcio. Quem passou por isso sabe do que estou falando. Em primeiro lugar, nossa cabeça fica em qualquer lugar, menos no exercÃcio do ofÃcio. Por mais profissionais que sejamos, é difÃcil não pensar em bebezices 24 horas por dia quando estamos prestes a ingressar no delicioso universo de fraldas, mamadas e dobrinhas. Em segundo lugar, os colegas não necessariamente ajudam – a cada cinco minutos, alguém me pergunta quando o bebê vai nascer, se estou me sentindo bem, se eu não deveria estar em casa e por aà vai. Em terceiro lugar, parece-me profundamente constrangedor sair a todo instante para comparecer à s consultas médicas.
Há ainda aspectos de ordem fÃsica - as noites em claro por causa da barrigona cobram seu preço – e logÃstica. É preciso lavar as roupinhas do bebê, verificar o estoque de fraldas e comprar os últimos acessórios (ontem entrei em pânico, antes de dormir, ao verificar que me esqueci completamente de comprar toalhas para a Alice). Mas o que mais me incentiva a ficar em casa – e aqui confesso minha completa futilidade – é minha terrÃvel aparência. Sinto-me, de fato, um bucho.
Comecemos pelos cabelos. Pinto-os desde os 25. Não apenas porque, na fase da falta de noção estética, queria-os em cores diferentes (e ridÃculas) a cada mês, mas essencialmente pelo fato de meus fios brancos me acompanharem desde tempos imemoriais. Agora, sem ver coloração desde agosto, eles abundam de todos os pontos da minha cabeça. Embora muitos médicos digam que não há nada que comprove que tinturas causam danos ao feto, preferi não correr o risco. Meu medo é de que, ao nascer, Alice pense que, em vez de mãe, sou sua avó.
Prossigamos pelo meu corpo. Ele está 16 quilos mais gordo e estou certa de que boa parte deles estão concentrados nas minhas bochechas e braços. Quando rio, as maçãs do rosto apertam os olhos e viro uma japonesa. Por isso, ando ligeiramente mais antipática nos últimos tempos. Se alguém me conta uma coisa engraçadÃssima, esboço um sorriso blasé, destes em que não mostramos os dentes.
Mas nada me parece pior do que abrir o armário de roupas, todas as manhãs, e me deparar com as mesmas pecinhas de todos os dias. A cada amanhecer uma quantidade menor de roupas entra em mim – mesmo algumas que comprei para a gravidez já foram parar na parte de cima do armário. Um vestido xadrez que uso com uma legging preta já deve ter inscrição no RH da empresa onde trabalho, de tanto que ele bate ponto por aqui. Isso sem falar que, submetidas a constantes lavagens para que possam ser usadas de novo dali a poucos dias, minhas peças já estão desbotadas, puÃdas e, algumas, com a costura frouxa.
De todo modo, vou tentar resistir às intempéries e trabalhar por mais 15 dias. Mas estou quase certa de que, dentro de uma semana, estarei no conforto do meu lar, de chinelos e camisola, lendo uma revista sobre bebês ou arrumando a mala da maternidade. Mal posso esperar.


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