Como criar filhos vegetarianos ou veganos de forma saudável

É possível oferecer uma dieta composta apenas por alimentos de origem vegetal desde a introdução dos sólidos. Mas isso requer supervisão. Saiba mais!

Um projeto de lei proposto no início de agosto de 2016 pela italiana Elvira Savino, membro do partido conservador Forza Italia, ganhou repercussão mundo afora. A parlamentar pretende criminalizar pais que optarem por oferecer uma dieta vegana – restrita de carnes, lácteos, ovos e outros produtos de origem animal – aos seus filhos. O texto do projeto diz que pais e mães podem ser processados por alimentar suas crianças com “uma dieta desprovida de elementos essenciais à saúde e ao crescimento saudável”. A regra valeria para meninos e meninas de até 16 anos de idade e a pena aos responsáveis chegaria a oito anos de prisão.

A medida pode até ser drástica, mas ela não foi criada à toa. No último ano, três casos chocaram o país: o primeiro, em 2015, envolveu um bebê vegano de 11 meses que foi diagnosticado com subnutrição severa; o segundo estava relacionado a um garotinho de 1 ano e 2 meses que pesava o equivalente a um recém-nascido de 3 meses e cuja guarda foi retirada dos pais, que também eram adeptos dessa dieta; o terceiro e mais recente episódio, ocorrido em junho de 2016, foi de uma menina de 2 aninhos que foi para a UTI por deficiências de vitaminas e hemoglobina.

Mas calma: é inegável que esses relatos são gravíssimos, no entanto, será que esse é o destino de todos os pequenos que são introduzidos desde cedo a uma dieta vegana? Não. É possível, sim, oferecer aos baixinhos um menu baseado somente em vegetais. Só que isso requer muito planejamento e o acompanhamento próximo não só de um pediatra, mas também de um nutricionista. “Se a família opta por ter uma dieta restrita, a criança, como qualquer outra que tem uma restrição alimentar, pode ter um certo déficit nutricional. E é o nutricionista que vai alinhar o desejo dos pais à necessidade de crescimento e desenvolvimento do filho”, observa a nutricionista Mariana Del Bosco, mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Acontece que muitos pais que são adeptos de uma vida sem carne ou outros produtos de origem animal não buscam ajuda profissional e erram na hora de introduzir esse hábito alimentar na vida dos pequenos. “Um dos principais problemas é não incluir ingredientes que são fontes de nutrientes essenciais, como ferro e proteínas”, alerta a pediatra Ana Escobar, professora da Faculdade de Medicina da USP.

Além disso, como se viu nos tristes casos ocorridos na Itália, não ter informação e orientação pode trazer sérias consequências ao desenvolvimento (e à vida) da criançada. A falta de proteínas, por exemplo, prejudica o crescimento dos pequenos. Já a ausência de ferro causa anemia, “um dos distúrbios que mais cresce no Brasil”, segundo Ana Escobar. Quando se trata dos veganos, que não ingerem leite e derivados, o risco de ter um déficit de cálcio é grande. “É difícil atingir a quantidade necessária, porque é preciso comer muitos vegetais para chegar perto da recomendação diária”, alerta o pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg, coordenador do Centro de Dificuldades Alimentares do Instituto PENSI do Hospital Infantil Sabará, em São Paulo. E o resultado de ter poucas doses desse mineral no corpo é um crescimento ósseo defasado, o que pode levar não só a dificuldades para ganhar estatura, mas também a um maior risco de fraturas, por exemplo.

Os pais vegetarianos também podem pecar pelo excesso. Abusar de itens com muitas fibras, a exemplo dos farelos de cereais, abre portas para outros prejuízos à saúde da meninada. “A criança tem um estômago pequeno e precisa aproveitar ao máximo sua capacidade de ingestão. Se colocarmos um excesso de fibras, ela vai ficar saciada mais rápido, e aí pode haver uma redução na oferta de calorias que ela precisa”, explica o nutricionista George Guimarães, especializado em nutrição vegetariana.

Vantagens

Apesar de todas essas ressalvas, esse modelo alimentar – quando feito sob orientação – tem muito a oferecer aos baixinhos. “Eles vão desenvolver o paladar para sabores mais diversos. Em relação à saúde, é uma alimentação isenta de colesterol e gorduras saturadas”, destaca Guimarães. Esses benefícios contribuem não só para que a meninada aprenda a gostar do que é saudável, mas também para que doenças como diabetes e males cardiovasculares comecem a ser prevenidos já na infância.

O que não pode faltar

Saiba como obter, numa dieta livre de carne, os nutrientes essenciais ao crescimento do seu filho e que são encontrados, na maioria das vezes, em alimentos de origem animal.

Check-up nas mamães

As mulheres que são vegetarianas ou veganas e que têm uma alimentação variada e balanceada dificilmente terão algum desequilíbrio nutricional. Mesmo assim, durante a gravidez e a lactação, é importante checar se está tudo em ordem e se é necessário suplementar algum nutriente. É o corpo da mãe, no fim das contas, que vai garantir ao bebê tudo o que ele precisa para se formar e crescer cheio de saúde.

O valor do leite materno

Independentemente de a mãe consumir ou não carne, esse é o alimento mais completo que existe. Tanto que, até os 6 meses de vida, a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que os bebês se alimentem exclusivamente de leite materno. Depois, ele deve ser complementado por outros alimentos até os 2 anos ou mais, pois só a amamentação já não é mais suficiente para suprir as necessidades nutricionais da crianças.

Vida social dos pequenos sem carne

Monkey Business Images Ltd/Thinkstock/Getty Images Monkey Business Images Ltd/Thinkstock/Getty Images

Como garantir que o cardápio dos pequenos vegetarianos ou veganos seja respeitado fora de casa? Bom, na escolinha, a orientação dos especialistas é estar bem próximo da instituição. “Essas famílias precisam conversar com a escola para que ela possa se preparar”, aconselha Mariana Del Bosco. Quando se trata de festinhas infantis, os baixinhos que ingerem ovos e leite não devem ter tantos problemas. A coisa complica para os que excluem esses ingredientes da alimentação. “Em geral, os pais vão levar algo diferente para essa criança”, conta George Guimarães. Nas comemorações em família, no entanto, fica mais fácil preparar uma parte dos salgadinhos e docinhos sem qualquer ingrediente de origem animal.

Escolhas próprias

E se, lá na frente, o bebê que aprendeu a não comer carne desde cedo quiser experimentar um bifinho ou um filé de frango? Essa é uma decisão muito particular de cada família, é claro. Mas muitos defendem que, apesar de suas convicções, pais e mães deveriam permitir que os pequenos tenham suas vivências. “A criança também tem direito de fazer as suas próprias escolhas. Então, os pais têm que ter clareza de oferecer aos filhos todas as opções possíveis e deixar que elas façam as suas escolhas dentro dos limites do saudável”, opina a pediatra Ana Escobar.

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